Mostrar mensagens com a etiqueta momentos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta momentos. Mostrar todas as mensagens

Nos Filmes falados na SHE, desta vez "Ponette"

domingo, 25 de setembro de 2011 by Patrícia Claudino
O mote começa, antes mesmo da sua apresentação na bela Sociedade Harmonia Eborense (no coração da Cidade de Évora), com um breve comentário escrito pelo Zé Manuel - organizador e alma deste espaço  - "Há duas maneiras de os mortos o estarem, há duas maneiras de os vivos viverem (isso). Mas não havia nenhuma maneira de levar uma criança de quatro anos a 'representá-lo', sendo actriz ao ponto de deixar de o ser: se milagre há neste filme, ele consiste, como toda a equipa técnica regista, em realizar o impossível; e não uma só vez, mas todas...".

É de Ponette que se fala...e falou-se pela noite dentro na passada segunda feira. À conversa sobre um tema que nunca é fácil de aceitar, mas que o filme nos apresenta a partir do olhar de uma criança, lá viajámos inebriados por esse olhar, pelo tema e pelos sentidos inexistentes da nossa vida. Um profundo momento de partilha, encontro e desnudar de pequenos fragmentos frágeis em nós mesmos...

Sobre Ponette e a partir do poema de Paul Celan (1966) "Não te escrevas", assim fluiram os meus pensamentos...


“A morte é uma flor”

“Não te escrevas
Entre os mundos,

Ergue-te contra
A variedade de sentidos,

Confia no rasto das lágrimas
E aprende a viver.”
Paul Celan (1966),  “Não te escrevas"

Escolho estas palavras do poema “Não te escrevas “ de Paul Celan por dele receber mais que uma dentre possíveis definições do processo de luto, um mote para a sua sobrevivência. Mote esse que à semelhança deste filme, nos convida a passearmo-nos de forma natural e explicita, pelos olhos,  vivências, elaborações e procura de sentido de uma criança de 4 anos, no seu luto pela perda (e morte) da sua mãe. Mais que um retrato do processo de luto, diria estarmos na presença de um tratado a um dos processos ancestrais, comuns e possíveis na história da humanidade: a morte do outro (e o possível confronto com o que fica vivo desse outro, em mim).
Vivemos numa época onde há pouco tempo para a tristeza (saudável) e menos ainda para o “tempo afectivo” que um processo de luto pode levar. Para “pessoas ocupadas” como nós,  este filme pode representar uma profunda aprendizagem para os que possam ver nele, mais que um filme de crianças e protagonizado por crianças, uma lição sobre a dor de perder alguém querido e a eterna verdade do que possa significar a elaboração de um processo de dor. 90 minutos de Ponette para adultos ocupados e com pouco “espaço” e “tempo” para, como as crianças, poder chorar, ficar tristes e lamentar a perda de alguém que não sentem estar preparados para deixar partir…viver entre dois mundos, acordar na confabulação e sonho dos sentidos, para confiar no rasto das lágrimas e reaprender a viver.
O convite é simples: caminhar lado a lado com Ponette na sua (nossa) narrativa de procurar sentidos à ausência de sentido que a perda possa significar. 90 minutos para olhar para os sentidos que surgem à volta desse processo que nos leva a encontrar nos outros, nas crenças e na espiritualidade, o sentido para continuarmos a aprender a viver e renascermos (com a ausência física dos outros), mas com a sua presença interior em nós.
Ponette, uma menina de quatro anos, viaja desde o despertar ressacado da ausência física da sua mãe ao reencontro com a sua mãe “interior” (não a de carne e osso, mas a sua mãe dentro de si), um processo ao qual o sentido existencial  apelida de “crescimento” e que representa um processo que decorre não somente na infância, senão ao longo da nossa vida, de como na sequência da perda dos que amamos, nos perdemos deles e de nós, até ao (possível) reencontro para dar voz ao que ficou por dizer e sentido à (sua) ausência. “Confia[r] no rasto das lágrimas e aprende[r] a viver”…  
  

Évora, 19 de Setembro de 2011
Patrícia Claudino



Depois da calmia do Verão, o recomeço

sábado, 24 de setembro de 2011 by Patrícia Claudino
Algures no Parque Natural de Montesinho, Bragança

Já passou o Verão, e também já lá vão os anos em que podia dizer de forma enérgica a esta altura do ano: FÉRIAS! Na verdade, também as tive, mas já não da mesma maneira saborosa com que durante muitos anos da minha vida o disse...estarei nostálgica? a sentir-me envelhecer? se calhar, não sei! Aprecio coisas diferentes no verão e isso não é necessariamente mau! Pelo contrário! Revejo pessoas de quem gosto muito e que estão longe...o que é sempre bom. Reencontro-me em espaços meus familiares e queridos (comigo) - aprecio o que se mantém intacto e o que muda com o tempo! (Sento-me e sou arrebatada por imagens de outros momentos que guardo e outras novas que agora adiciono ao sítio "Y" e ao sítio "Z"). 

Encontro outros sítios, novos sítios e inscrevo-lhes uma história sobre eles: a primeira vez em...com...coloco a dúvida: tiro uma fotografia ou guardo só na memória?! voltarei aqui alguma outra vez?

Depois disto, regresso e trago comigo o registo do que mudo e cresço... do que ja não quero manter ou que sinto não me fazer falta e por isso deixo pelo caminho! sinto-me grata porque à minha volta muitas outras coisas vão lentamente mudando, e eu sem sair do mesmo sítio, mudo!

Chega o Outono e com ele o Recomeço...   
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

25 de Abril e FMI

segunda-feira, 25 de abril de 2011 by Patrícia Claudino
Viva o 25 de Abril!! Viva a Liberdade!!!! 
Hinos de um momento perdido no tempo e presente na memória colectiva. Hinos de um ideal e de uma revolução necessária; ecos de um momento tão distante quanto presente, tão necessário quanto díficil de concretizar. Difícil porque exige algo que se perdeu no tempo: a coesão, os princípios da solidariedade e da presença de todos numa só força.

Em vez disso, vivemos tempo em que todos comentam tudo, mas ninguém se une (seja por que causas for); todos criticam todos, mas ninguém faz nada "porque de nada servirá"...e porque "é o que temos", frases típicas de comiseração por sermos pequenos, por sermos portugueses, por sermos...individualistas e profundamente egoístas; cómodos no nosso papel, incomodados com a falta de ética em que vivemos e que criticamos tanto na classe política como a nível social; comiseramo-nos porque nos sentimos conduzidos por outros para a desgraça de todos, e perdidos neste discurso "oco e vazio" que produzimos e reproduzimos até à exaustão. Vivemos à sombra do que quereríamos ser, ter e não somos, nem temos: coragem, ética e coesão.

Contra mim falo, não me excluo desta nossa sociedade e forma de ser, mas preciso de dizer aqui e hoje aquilo que neste 25 de Abril me vai na alma: a descrença em que caímos à sombra dos ideais que outrora nos deram liberdade.
Faço então minhas as palavras do José Mário, e espero poder para o ano escrever aqui algo mais crente e poético: mas não este ano e não porque "seja o que faz falta para animar a malta".

Deixo aqui, por não ser só uma manifestação ideológica, mas porque é a manifestação de tudo quanto nos vai na cabeça e no coração dos comuns mortais e não menos importante, uma manifestação artística...José Mario Branco!!


Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

FMI, crise(s) e Sophia - a musa do "encontro"

quarta-feira, 6 de abril de 2011 by Patrícia Claudino
Refugio-me num livro de poemas de Sophia, a velha musa do "encontro" - comigo - em momentos em que à minha volta reinam os encontros repletos de "ausências". Seja pela crise, ou pelas crises que se sentem - derivadas desta ou de outras em ebulição, quais terramotos ou tsunamis da vida; seja pela tão anunciada chegada do FMI e o encontro com a inevitabilidade das constantes incertezas e confusão na nossa vida...hoje é um dia em que mergulho neste poema e em que sinto uma vez mais, seja em que cenário for e pelas razões que surjam, como nunca podemos esquecer que somos "o único homem do meu barco".

Dias correm em que reina a desconfiança, a instabilidade e o constante receio dos cenários que cruzam a nossa vida, cheios de crise, olhares vazios, descrentes e desconfiados; ainda assim vivos! ainda assim presentes! "nessa pátria onde o vento passa (...) e nunca acordo deste sonho e nunca durmo".

autor desconhecido


Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
[…]
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

 Sophia de mello breyner andresen
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

[sonho. não sei quem sou]

terça-feira, 8 de março de 2011 by Patrícia Claudino

Sonho. Não sei quem sou neste momento. 
Durmo sentindo-me. Na hora calma 
Meu pensamento esquece o pensamento, 
Minha alma não tem alma. 

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo 
Parece que erro. Sinto que não sei. 
Nada quero nem tenho nem recordo. 
  Não tenho ser nem lei. 

Lapso da consciência entre ilusões, 
Fantasmas me limitam e me contem. 
Dorme inconsciente de alheios corações, 
Coração de ninguém.

Fernando Pessoa, poema ortónimo datado de 6/1/1923.
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

A Tod@s: Feliz 2011!!

sábado, 8 de janeiro de 2011 by Patrícia Claudino
E a ti Silvia, um particular obrigada, por este poema!!



Recomeça….

  Se puderes 
Sem angústia
E sem pressa. 
E os passos que deres,
Nesse caminho duro 
Do futuro
Dá-os em liberdade.
 Enquanto não alcances
Não descanses. 
De nenhum fruto queiras só metade. 
E, nunca saciado, 
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo 
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças! 
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Miguel Torga
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

Poema de Natal para aqueles para quem o NATAL é sempre que o homem sonha!

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010 by Patrícia Claudino
 


Para não variar a minha tendência nos últimos meses, essa que me leva a não impor-me datas e tempos e que me leva simplesmente a fruir desse momento em que porque me apetece, porque me faz sentido, porque tenho tempo e não esqueci ou porque algo me acompanha e quero partilhá-lo, resolvo colocá-lo aqui.

Desta vez partilho o poema de NATAL do Vinicius de Moraes, que dedico a ti Ricardo que um dia o partilhaste comigo...

E dedico-o também a tod@s os que acompanham este espaço, fazendo votos que a noite de 24 e o dia de 25 tenham sido não uma obrigação estabelecida socialmente e no seio da família e sim um daqueles momento de fruir sabores, estar com pessoas que nos são queridas, e celebrar a vida - a nossa e a daqueles que amamos, e a morte - daqueles que fazem parte da nossa história e da nossa existência, e que existem algures "num espaço" sideral dentro de nós.

De igual maneira, partilho este poema de Natal para celebrar o ano que agora chega ao fim e receber com a sua "morte" o próximo que nasce...e quero igualmente deixar esta reflexão que é a minha neste momento, de como das coisas que ao morrerem em nós nos permitem abraçar novos espaços de vida, outros, espaços alternativos...e de como a vida tem esta recorrência de repetir-se nesse acto de nascer e morrer (continuamente)...
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

[retalhos de um mês passado]

segunda-feira, 1 de novembro de 2010 by Patrícia Claudino
Nos tempos que correm, perdi por minutos, horas e dias o tempo que semanalmente procuro dispensar para este espaço. O mês de Outubro, à semelhança do de Setembro, e por consequência do Agosto, não foram mais que dias corridos com muita acção e pouca reflexão! 

Hoje, 1º dia de Novembro, decido parar para pôr em dia os vários posts dos "meandros dessa vida" do mês de Outubro. Algumas ideias soltas, não mais que pensamentos vagos assumem forma, corpo e expressão!
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

um passo de cada vez

sexta-feira, 24 de setembro de 2010 by Patrícia Claudino

Após um considerável período de ausência - grandemente determinada pela recepção ao "mon petit prince", uns dias de férias e uma necessidade de parar para saborear... reflectir e (re)começar a caminhar...regresso!

Entretanto, a aventura dos workshops introdutórios às terapias expressivas já começou e com ela  reflexões teóricas, ideias e experiências partilhadas com a Marta e desta fusão, com os restantes elementos do grupo. Guardo com particular surpresa o encontro com um grupo de mulheres (como tendencialmente ocorre nestas áreas de formação) inspiradas, cada uma com uma experiência e um olhar diferente e pessoal...Presentes! sente-se uma energia interessante no ar!

Outros projectos caminham para o seu final, com eles novos inícios estão a ser pensados e outros já andam "vagarosamente" em movimento! Um regresso à vida quotidiana com sensações de movimentos (internos, externos e algumas inquietações), pelo menos para já, pela sensação de pisar o chão e começar a caminhar. Sinto vontade de voltar a dançar...

Resta-me partilhar que não queria terminar este "post" sem desejar, a tod@s os que acompanham este espaço...um grande bem haja!
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

O meu pequeno príncipe no seu "grande" planeta REDONDO

terça-feira, 13 de julho de 2010 by Patrícia Claudino
O meu pequeno principe, upload feito originalmente por sensorealmente.
A poucos dias do termo da gravidez da minha irmã...a poucos dias de chegar à minha vida o meu "sobrinho...o 1º"; surge-me a vontade de partilhar, sobretudo com ele (daqui por alguns bons anitos), o que gostaria de lhe dizer neste momento sobre o Mundo cá fora...
...Mundo no qual ele já é o meu pequeno príncipe!
...Mundo de muitas sensações, sentimentos e de Sonhos!
E porque Hoje ele é um Sonho...hoje ele vive dentro de um Sonho, a ele dedico-lhe o poema de António Gedeão:
Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


In Movimento Perpétuo, 1956
Posted in Etiquetas: | 1 Comment »

despertar dos dias

terça-feira, 6 de julho de 2010 by Patrícia Claudino
despertar dos dias, upload feito originalmente por sensorealmente.
Outro dia encontrei esta citação anónima numa sala de formação, escrita no quadro da aula. Transcrevi-a pela sua simplicidade e (confesso) uma ou outra palavra que denunciavam um sotaque brasileiro. Por ser simples, abrasileirada e corriqueira, quero anotá-la neste mural de pensamentos!! Entendo que todas as três qualidades atrás referidas, tornam-na rica em sabedoria popular!

Dizia: "Feliz do ser humano que ao despertar dos seus dias, faz uma prece de agradecimento. Mesmo que o teu dia anterior tenha sido ruim, não há felicidade maior que mais um dia de vida. A cada manhã a vida nos dá uma página em branco...depende de nós como vamos preenche-la"

A ela quero associar uma imagem que me é muito cara...um qualquer despertar de um dia num sítio particular e muito significativo para mim! Cacela Velha.
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

Palavras de Saramago

sábado, 26 de junho de 2010 by Patrícia Claudino
 Acordei com a sensação de "encontro"...(nesses tais encontros com personagens do meu "(In)consciente colectivo") relembro e partilho este lembrete:

"O viajante está feliz. Nunca na vida teve tão pouca pressa. Senta-se na beira de um destes túmulos, afaga com as pontas dos dedos a superfície da água, tão fria e tão viva, e, por um momento, acredita que vai decifrar todos os segredos do mundo. É uma ilusão que o assalta de longe em longe, não lho levem a mal."

In Viagem a Portugal, Ed. Caminho, 21.ª ed., p. 137
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

Palavras por Saramago

by Patrícia Claudino
"Não há nada mais triste que uma ausência (...), só fica uma pungente melancolia, esta que faz (...) sentar ao cravo e tocar um pouco, quase nada, apenas passando os dedos pelas teclas como se estivessem olhando um rosto quando já as palavras foram ditas ou são de menos."
  
In Memorial do Convento, José Saramago


(José Saramago por Sebastião Salgado, Foto: AFP)

É estranha esta sensação de incredulidade pela desaparecimento de alguém  (ainda que) com idade já avançada, vítima de uma morte "anunciada". Seria de esperar que me dissesse algo como: é a vida!!! para tranquilizar esta minha angústia, e... não sou capaz de o fazer. Procuro e não encontro palavras que tranquilizem esta sensação de estranheza...

Estranho o "vazio" que agora sinto...

Estranho e entranho a ausência de mais uma pessoa e, em mim - entidade - que, à semelhança de outras pessoas com "um não sei quê de magnético" me deixam após a sua morte, uma amarga sensação de quem perde algo com um medo ameaçador de não mais voltar a encontrar!...
Talvez receie com a sua ausência física perder a sua inteligência, palavras, ironia, olhar crítico sobre...a sua honestidade e integridade (e quanta falta fazem pessoas no mundo, assim?!).

Ainda releio as notícias sobre a sua morte como se de uma coisa sem sentido se tratasse, talvez à espera que amanhã ou depois, apareça um comentário seu no blog ou um novo livro: fresquinho e actual, sensível, profundamente realista e perturbador. Ainda assim percebo que tal não voltará a acontecer...pelo menos não pela sua mão, e não com o seu cunho...

A sua morte toca na estranheza da perda e ausência(s), esse contínuo desfalque que a vida vai dando a pessoas com quem cresci, observando atenta, com profunda Admiração! Neste momento em que escrevo confronto-me com essa, cada vez mais recorrente, descoberta do que é aprender a viver com a memória de alguém que partiu, ninguém sabe muito bem para onde.

...Vou-me deitar, consciente de que adormecerei envolta por este sentimento nostálgico. Pergunto-me se irei acordar, amanhã - num novo dia - com a sensação de ter estado perto de alguém que habita o meu "(in)consciente colectivo". 

A ele, Saramago e ao meu (in)consciente colectivo, o meu até já...
Posted in Etiquetas: | 1 Comment »

Évora [perdida no esquecimento ]

segunda-feira, 14 de junho de 2010 by Patrícia Claudino
 

“Toda a história do mundo não é mais que um livro de imagens reflectindo o mais violento e mais cego dos desejos humanos: 
o desejo de esquecer.”

 Hermann Hesse, Viagem pelo Oriente

Posted in Etiquetas: | 1 Comment »

[...]

quinta-feira, 13 de maio de 2010 by Patrícia Claudino
she.girls, upload feito originalmente por sensorealmente.

[…]
As coisas há muito já foram vividas:
Há no ar espaços extintos
A forma gravada em vazio
Das vozes e dos gestos que outrora aqui estavam.
E as minhas mãos não podem prender nada.
SOPHIA DE MELLO BRYNER
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »

A poesia está na rua...

segunda-feira, 3 de maio de 2010 by Patrícia Claudino
                                                                            (Vieira da Silva)

Adoro este quadro...a Poesia está na rua!!! Precisei de vários dias para digerir um 25 de Abril diferente...aquele que tive este ano; ao mesmo tempo que continuamente, dia após dia, jornais noticiam e publicam a situação da Grécia e deixam em aberto a de Portugal.
Pois bem, em dias conturbados como aqueles que o nosso país vive...o 25 de Abril não é, para mim, SÓ a memória do dia que marca a Liberdade...de expressões e sentires!! mas é também o rosto da revolução que, enquanto portuguesa, não quero esquecer dentro de mim...
Por isso escolhi, para partilhar, um poema de Ary dos Santos, escrito pelo "fresco" do 25 de Abril...um poema que partilho por reconhecer nele, o mesmo país em que vivo...naquelas que são as suas dicotomias de sempre, mas que acredito precisem de renovar-se: PARA SEMPRE!!!

As Portas Que Abril Abriu

José Carlos Ary dos Santos

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais feliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raíz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado
Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinhiero estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos dos passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
Era já uma promessa
era a força da razão
do coração à cabeça
da cabeça ao coração
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas tabém tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
 
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
 
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
 
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com a que a força da vida
seja maior do que a morte.
 
Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
 
Posta a semente do cravo
começou a floração
do capitão ao soldado
do soldado ao capitão.
 
Foi então que o povo armado
percebeu qual a razão
porque o povo despojado
lhe punha as armas na mão.
 
Pois também ele humilhado
em sua própria grandeza
era soldado forçado
contra a pátria portuguesa.

Era preso e exilado
e no seu próprio país
muitas vezes estrangulado
pelos generais senis.
 
Capitão que não comanda
não pode ficar calado
é o povo que lhe manda
ser capitão revoltado
é o povo que lhe diz
que não ceda e não hesite
- pode nascer um país
do ventre duma chaimite.
 
Porque a força bem empregue
contra a posição contrária
nunca oprime nem persegue
- é a força revolucionária!

Foi então que Abril abriu
as portas da claridade
e a nossa gente invadiu
a sua própria cidade.
 
Disse a primeira palavra
na madrugada serena
um poeta que cantava
o povo é quem mais ordena.
 
E então por vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
desceram homens sem medo
marujos soldados "páras"
que não queriam o degredo
de um povo que se separa.
E chegaram à cidade
onde os monstros se acoitavam
era a hora da verdade
para as hienas que mandavam
a hora da claridade
para os sóis que despontavam
e a hora da vontade
para os homens que lutavam.
 
Em idas vindas esperas
encontros esquinas e praças
não se pouparam as feras
arrancaram-se as mordaças
e o povo saiu à rua
com sete pedras na mão
e uma pedra de lua
no lugar do coração.
 
Dizia soldado amigo
meu camarada e irmão
este povo está contigo
nascemos do mesmo chão
trazemos a mesma chama
temos a mesma razão
dormimos na mesma cama
comendo do mesmo pão.
Camarada e meu amigo
soldadinho ou capitão
este povo está contigo
a malta dá-te razão.
 
Foi esta força sem tiros
de antes quebrar que torcer
esta ausência de suspiros
esta fúria de viver
este mar de vozes livres
sempre a crescer a crescer
que das espingardas fez livros
para aprendermos a ler
que dos canhões fez enxadas
para lavrarmos a terra
e das balas disparadas
apenas o fim da guerra.
 
Foi esta força viril
de antes quebrar que torcer
que em vinte e cinco de Abril
fez Portugal renascer.

E em Lisboa capital
dos novos mestres de Aviz
o povo de Portugal
deu o poder a quem quis.
 
Mesmo que tenha passado
às vezes por mãos estranhas
o poder que ali foi dado
saiu das nossas entranhas.
Saiu das vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
onde um povo se curvava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua prórpia pobreza.
 
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe.
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu.
 
Essas portas que em Caxias
se escancararam de vez
essas janelas vazias
que se encheram outra vez
e essas celas tão frias
tão cheias de sordidez
que espreitavam como espias
todo o povo português.
 
Agora que já floriu
a esperança na nossa terra
as portas que Abril abriu
nunca mais ninguém as cerra.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo de mês de Junho.
 
Quando o povo desfilou
nas ruas em procissão
de novo se processou
a própria revolução.
 
Mas era olhos as balas
abraços punhais e lanças
enamoradas as alas
dos soldados e crianças.
 
E o grito que foi ouvido
tantas vezes repetido
dizia que o povo unido
jamais seria vencido.

Contra tudo o que era velho
levantado como um punho
em Maio surgiu vermelho
o cravo do mês de Junho.
 
E então operários mineiros
pescadores e ganhões
marçanos e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
souberam que o seu dinheiro
era presa dos patrões.
 
A seu lado também estavam
jornalistas que escreviam
actores que desbobravam
cientistas que aprendiam
poetas que estrebuchavam
cantores que não se vendiam
mas enquanto estes lutavam
é certo que não sentiam
a fome com que apertavam
os cintos dos que os ouviam.
 
Porém cantar é ternura
escrever constrói liberdade
e não há coisa mais pura
do que dizer a verdade.
 
E uns e outros irmanados
na mesma luta de ideias
ambos sectores explorados
ficaram partes iguais.
 
Entanto não descansavam
entre pragas e perjúrios
agulhas que se espetavam
silêncios boatos murmúrios
risinhos que se calavam
palácios contra tugúrios
fortunas que levantavam
promessas de maus augúrios
os que em vida se enterravam
por serem falsos e espúrios
maiorais da minoria
que diziam silenciosa
e que em silêncio faziam
a coisa mais horrorosa:
minar como um sinapismo
e com ordenados régios
o alvor do socialismo
e o fim dos privilégios.
 
Foi então se bem vos lembro
que sucedeu a vindima
quando pisámos Setembro
a verdade veio acima.
 
E foi um mosto tão forte
que sabia tanto a Abril
que nem o medo da morte
nos fez voltar ao redil.
 
Ali ficámos de pé
juntos soldados e povo
para mostrarmos como é
que se faz um país novo.
 
Ali dissemos não passa!
E a reacção não passou.
Quem já viveu a desgraça
odeia a quem desgraçou.
 
Foi a força do Outono
mais forte que a Primavera
que trouxe os homens sem dono
de que o povo estava à espera.
 
Foi a força dos mineiros
pescadores e ganhões
operários e carpinteiros
empregados dos balcões
mulheres a dias pedreiros
reformados sem pensões
dactilógrafos carteiros
e outras muitas profissões
que deu o poder cimeiro
a quem não queria patrões.
 
Desde esse dia em que todos
nós repartimos o pão
é que acabaram os bodos
- cumpriu-se a revolução.
 
Porém em quintas vivendas
palácios e palacetes
os generais com prebendas
caciques e cacetetes
os que montavam cavalos
para caçarem veados
os que davam dois estalos
na cara dos empregados
os que tinham bons amigos
no consórcio dos sabrões
e coçavam os umbigos
como quem coça os galões
os generais subalternos
que aceitavam os patrões
os generais inimigos
os genarais garanhões
teciam teias de aranha
e eram mais camaleões
que a lombriga que se amanha
com os próprios cagalhões.
Com generais desta apanha
já não há revoluções.
 
Por isso o onze de Março
foi um baile de Tartufos
uma alternância de terços
entre ricaços e bufos.
 
E tivemos de pagar
com o sangue de um soldado
o preço de já não estar
Portugal suicidado.
 
Fugiram como cobardes
e para terras de Espanha
os que faziam alardes
dos combates em campanha.
 
E aqui ficaram de pé
capitães de pedra e cal
os homens que na Guiné
apenderam Portugal.
 
Os tais homens que sentiram
que um animal racional
opões àqueles que o firam
consciência nacional.
 
Os tais homens que souberam
fazer a revolução
porque na guerra entenderam
o que era a libertação.
 
Os que viram claramente
e com os cinco sentidos
morrer tanta tanta gente
que todos ficaram vivos.
 
Os tais homens feitos de aço
temperado com a tristeza
que envolveram num abraço
toda a história portuguesa.
 
Essa história tão bonita
e depois tão maltratada
por quem herdou a desdita
da história colonizada.
 
Dai ao povo o que é do povo
pois o mar não tem patrões.
- Não havia estado novo
nos poemas de Camões!
 
Havia sim a lonjura
e uma vela desfraldada
para levar a ternura
à distância imaginada.
 
Foi este lado da história
que os capitães descobriram
que ficará na memória
das naus que de Abril partiram
 
das naves que transportaram
o nosso abraço profundo
aos povos que agora deram
novos países ao mundo.
 
Por saberem como é
ficaram de pedra e cal
capitães que na Guiné
descobriram Portugal.
 
Em em sua pátria fizeram
o que deviam fazer:
ao seu povo devolveram
o que o povo tinha a haver:
Bancos seguros petróleos
que ficarão a render
ao invés dos monopólios
para o trabalho crescer.
Guindastes portos navios
e outras coisas para erguer
antenas centrais e fios
de um país que vai nascer.
 
Mesmo que seja com frio
é preciso é aquecer
pensar que somos um rio
que vai dar onde quiser
 
pensar que somos um mar
que nunca mais tem fronteiras
e havemos de navegar
de muitíssimas maneiras.
 
No Minho com pés de linho
no Alentejo com pão
no Ribatejo com vinho
na Beira com requeijão
e trocando agora as voltas
ao vira da produção
no Alentejo bolotas
no Algarve maçapão
vindimas no Alto Douro
tomates em Azeitão
azeite da cor do ouro
que é verde ao pé do Fundão
e fica amarelo puro
nos campos do Baleizão.
Quando a terra for do povo
o povo deita-lhe a mão!
 
É isto a reforma agrária
em sua própria expressão:
a maneira mais primária
de que nós temos um quinhão
da semente proletária
da nossa revolução.
 
Quem a fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão.
 
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
um menino que sorriu
uma porta que se abrisse
um fruto que se expandiu
um pão que se repartisse
um capitão que seguiu
o que história lhe predisse
e entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo que levantava
sobre um rio de pobreza
a bandeira em que ondulava
a sua prórpia grandeza!
De tudo o que Abril abriu
ainda pouco se disse
e só nos faltava agora
que este Abril não se cumprisse.
Só nos faltava que os cães
viesses ferrar o dente
na carne dos capitães
que se arriscaram na frente.
 
Na frente de todos nós
povo soberano e total
e ao mesmo tempo é a voz
e o braço de Portugal.
 
Ouvi banqueiros fascistas
agiotas do lazer
latifundiários machistas
balofos verbos de encher
e outras coisa em istas
que não cabe dizer aqui
que aos capitães progressistas
o povo deu o poder!
E se esse poder um dia
o quiser roubar alguém
não fica na burguesia
volta à barriga da mãe!
Volta à barriga da terra
que em boa hora o pariu
agora ninguém mais cerra
as portas que Abril abriu!
(Lisboa, Julho-Agosto de 1975)
Posted in Etiquetas: | 0 Comments »