Durante vários meses este livro esteve perto de mim: na cabeceira da minha cama, na minha bolsa ou no meu imaginário; numa espécie de encontro com alguém que me é muito caro e que partiu deste mundo não faz muito tempo; numa espécie de procura por entender o que poderá ser viver na pele de alguém de 84 anos, e que de um momento para outro vê-se forçado a (re)inventar-se numa vida onde não existem sonhos, expectativas e na mala se leva pouco mais que dois ou três objectos pessoais e um vazio silencioso (à espera do dia da sua morte).
Uma intensa estória sobre o que resta, o que foi e como é a vida e o fim dela num homem de 84 anos. Uma narrativa muito intimista sob o olhar de um idoso, actor e personagem desse Portugal do século XX.
1. "Eu respondi que o tempo não era linear. Preparem-se sofredores do mundo, o tempo não é linear. a lógicas distantes e que se vão sucedendo uns aos outros respondo o sofredor e qualquer outro indivíduo, novamente num certo ponto de partida. é fácil de entender. quando queremos que o tempo nos faça fugir de alguma coisa, de um acontecimento, inicialmente contamos os dias, às vezes até as horas, e depois chegam as semanas triunnfais e os longos meses e depois os didácticos anos. mas para chegarmos aí temos de sentir o tempo também de outro modo.
(...)
o tempo guarda cápsulas indestrutíveis porque por mais dias que se sucedam, sempre chegamos a um ponto onde voltamos atrás, a um início qualquer, para fazer pela primeira vez alguma coisa que nos vai dilacerar impiedosamente porque nessa cápsula se injecta também a nitidez do quanto amávamos quem perdemos, a nitidez do seu rosto, que por vezes se perde mas ressurge sempre nessas alturas, até o timbre da sua voz, chamando o nosso nome ou, mais cruel ainda, dizendo que nos ama com um riso incrível pelo qual nos havíamos justificado em mil ocasiões do mundo"
outas sugestões implicadas:
