O mote começa, antes mesmo da sua apresentação na bela Sociedade Harmonia Eborense (no coração da Cidade de Évora), com um breve comentário escrito pelo Zé Manuel - organizador e alma deste espaço - "Há duas maneiras de os mortos o estarem, há duas maneiras de os vivos viverem (isso). Mas não havia nenhuma maneira de levar uma criança de quatro anos a 'representá-lo', sendo actriz ao ponto de deixar de o ser: se milagre há neste filme, ele consiste, como toda a equipa técnica regista, em realizar o impossível; e não uma só vez, mas todas...".
É de Ponette que se fala...e falou-se pela noite dentro na passada segunda feira. À conversa sobre um tema que nunca é fácil de aceitar, mas que o filme nos apresenta a partir do olhar de uma criança, lá viajámos inebriados por esse olhar, pelo tema e pelos sentidos inexistentes da nossa vida. Um profundo momento de partilha, encontro e desnudar de pequenos fragmentos frágeis em nós mesmos...
Sobre Ponette e a partir do poema de Paul Celan (1966) "Não te escrevas", assim fluiram os meus pensamentos...
“A morte é uma flor”
“Não te escrevas
Entre os mundos,
Ergue-te contra
A variedade de sentidos,
Confia no rasto das lágrimas
E aprende a viver.”
Paul Celan (1966), “Não te escrevas"
Escolho estas palavras do poema “Não te escrevas “ de Paul Celan por dele
receber mais que uma dentre possíveis definições do processo de luto, um mote
para a sua sobrevivência. Mote esse que à semelhança deste filme, nos convida a
passearmo-nos de forma natural e explicita, pelos olhos, vivências, elaborações e procura de sentido de
uma criança de 4 anos, no seu luto pela perda (e morte) da sua mãe. Mais que um
retrato do processo de luto, diria estarmos na presença de um tratado a um dos
processos ancestrais, comuns e possíveis na história da humanidade: a morte do
outro (e o possível confronto com o que fica vivo desse outro, em mim).
Vivemos numa época onde há pouco
tempo para a tristeza (saudável) e menos ainda para o “tempo afectivo” que um processo de luto pode levar. Para “pessoas ocupadas” como nós, este filme pode representar uma profunda
aprendizagem para os que possam ver nele, mais que um filme de crianças e
protagonizado por crianças, uma lição sobre a dor de perder alguém querido e a
eterna verdade do que possa significar a elaboração de um processo de dor. 90
minutos de Ponette para adultos ocupados e com pouco “espaço” e “tempo” para,
como as crianças, poder chorar, ficar tristes e lamentar a perda de alguém que
não sentem estar preparados para deixar partir…viver entre dois mundos, acordar
na confabulação e sonho dos sentidos, para confiar no rasto das lágrimas e
reaprender a viver.
O convite é simples: caminhar
lado a lado com Ponette na sua (nossa) narrativa de procurar sentidos à
ausência de sentido que a perda possa significar. 90 minutos para olhar para os
sentidos que surgem à volta desse processo que nos leva a encontrar nos outros,
nas crenças e na espiritualidade, o sentido para continuarmos a aprender a
viver e renascermos (com a ausência física dos outros), mas com a sua presença
interior em nós.
Ponette, uma menina de quatro
anos, viaja desde o despertar ressacado da ausência física da sua mãe ao reencontro
com a sua mãe “interior” (não a de carne e osso, mas a sua mãe dentro de si),
um processo ao qual o sentido existencial apelida de “crescimento” e que representa um processo que decorre não somente
na infância, senão ao longo da nossa vida, de como na sequência da perda dos
que amamos, nos perdemos deles e de nós, até ao (possível) reencontro para dar
voz ao que ficou por dizer e sentido à (sua) ausência. “Confia[r] no rasto das lágrimas e aprende[r] a viver”…
Évora, 19 de Setembro
de 2011
Patrícia Claudino

