"Não há nada mais triste que uma ausência (...), só fica uma pungente melancolia, esta que faz (...) sentar ao cravo e tocar um pouco, quase nada, apenas passando os dedos pelas teclas como se estivessem olhando um rosto quando já as palavras foram ditas ou são de menos."
In Memorial do Convento, José Saramago

(José Saramago por Sebastião Salgado,
Foto: AFP)
É estranha esta sensação de incredulidade pela desaparecimento de alguém (ainda que) com idade já avançada, vítima de uma morte "anunciada". Seria de esperar que me dissesse algo como: é a vida!!! para tranquilizar esta minha angústia, e... não sou capaz de o fazer. Procuro e não encontro palavras que tranquilizem esta sensação de estranheza...
Estranho o "vazio" que agora sinto...
Estranho e entranho a ausência de mais uma pessoa e, em mim - entidade - que, à semelhança de outras pessoas com "um não sei quê de magnético" me deixam após a sua morte, uma amarga sensação de quem perde algo com um medo ameaçador de não mais voltar a encontrar!...
Talvez receie com a sua ausência física perder a sua inteligência, palavras, ironia, olhar crítico sobre...a sua honestidade e integridade (e quanta falta fazem pessoas no mundo, assim?!).
Ainda releio as notícias sobre a sua morte como se de uma coisa sem sentido se tratasse, talvez à espera que amanhã ou depois, apareça um comentário seu no blog ou um novo livro: fresquinho e actual, sensível, profundamente realista e perturbador. Ainda assim percebo que tal não voltará a acontecer...pelo menos não pela sua mão, e não com o seu cunho...
A sua morte toca na estranheza da perda e ausência(s), esse contínuo desfalque que a vida vai dando a pessoas com quem cresci, observando atenta, com profunda Admiração! Neste momento em que escrevo confronto-me com essa, cada vez mais recorrente, descoberta do que é aprender a viver com a memória de alguém que partiu, ninguém sabe muito bem para onde.
...Vou-me deitar, consciente de que adormecerei envolta por este sentimento nostálgico. Pergunto-me se irei acordar, amanhã - num novo dia - com a sensação de ter estado perto de alguém que habita o meu "(in)consciente colectivo".
A ele, Saramago e ao meu (in)consciente colectivo, o meu até já...